A Busca do Conhecimento
Por que ler e estudar é importante?
Em 2024 foi realizada a 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, e os resultados, para os mais atentos à situação da nossa sociedade, não trouxeram grandes novidades. Basicamente, todos os indicadores pioraram em relação à 5ª edição da pesquisa (2019), e essa piora tem sido consistente quando comparada com as edições anteriores (a primeira em 2007): aumentou o número de não leitores, diminuiu a quantidade de livros lidos por ano, aumentou a quantidade de pessoas que nunca compraram livros, etc.
Algumas variáveis parecem associadas a um percentual maior de leitores: grupos de escolaridade mais alta, renda familiar mais alta e classe social mais elevada possuem mais leitores; o que não é inesperado. Mas, pessoalmente, noto que muitas pessoas de alta escolaridade, renda e classe, de fato, leem e estudam muito, mas são focadas em seus nichos e não o fazem pela pura busca do conhecimento e crescimento pessoal. Conheci pessoas que galgaram altos postos em suas carreiras, referências em suas áreas e profissionais de excelência, mas completamente leigos sobre qualquer assunto que não seja referente à sua área de atuação.
O conhecimento é uma ferramenta, mas muitos, independente da classe social, situação econômica e escolaridade, veem seu escopo de utilidade muito mais restrito do que realmente é. Na prática, isso se traduz como “se ler sobre [qualquer coisa não relacionada à minha profissão] não me traz dinheiro, por que devo fazer isso?”. É um questionamento válido. Mas o ponto é que além do dinheiro, o conhecimento e os estudos podem servir para o seu crescimento pessoal, algo mais elevado e menos materialista.
Também já conheci muitas pessoas mais simples, de profissões que não exigem nenhuma escolaridade e que, muitas vezes, têm um certo desprezo pelos estudos. A comparação entre o pedreiro e o engenheiro ilustra bem: “o engenheiro estuda tanto, mas não consegue assentar um tijolo, eu não estudei nada e sei construir uma casa inteira”. Acho uma comparação um tanto quanto descabida, mas não vou me alongar nesse ponto. O fato é que um pedreiro não precisa se tornar engenheiro, mas pode se beneficiar muito de adquirir conhecimento para evoluir em sua profissão, sem, claro, perder de vista que os estudos e a leitura podem trazer muito mais que retornos financeiros.
Comumente, e de maneiras sutis, nossa sociedade é permeada por uma crença de que a humanidade está em seu ápice e que tudo que veio antes é retrógrado e irrelevante, uma crença muito longe da verdade. Na realidade o mundo já está rodando há muito tempo, nós hoje somos apenas a ponta do iceberg, antes de nossa geração vieram muitas outras que contribuíram para o mundo ser o que é hoje. Pense em todo o conhecimento desenvolvido nos séculos passados, o mundo não surgiu ontem. Quando nos privamos (ou somos privados) dos livros e do conhecimento perdemos acesso a toda sabedoria acumulada em séculos, por aqueles que vieram antes de nós.
Quando perdemos essa visão ampla da história nos tornamos vítimas fáceis, como cegos em meio a um tiroteio, sem entender o que está acontecendo na sociedade e no mundo. Sob certa perspectiva, a história é cíclica, conjuntos de circunstâncias ao longo da história humana criaram as condições adequadas para os eventos que vieram em seguida. Quem aprende história não é pego de surpresa em situações previsíveis. Como disse o pastor John Piper, parafraseando Eclesiastes 1:9: “Não há nada de novo debaixo do sol, apenas infinitas reembalagens”.
Mas claro, não se trata apenas do estudo da história. Infelizmente, a maioria dos brasileiros se priva ou é privada de muito conhecimento e das obras mais belas e inspiradoras que as grandes mentes já produziram. Sempre estudei em escolas públicas e depois fui para a universidade, em toda essa jornada acadêmica (e acredito que não fui o único), nunca tive um professor(a) que me incentivasse a ler, por exemplo, Shakespeare, Dante ou Dostoiévski (talvez porque eles mesmos não leram e ninguém os incentivou também). Mas pare para pensar: por que A Odisseia, escrito no século VIII a.C. na Grécia Antiga, resistiu aos séculos e ainda é apreciado hoje? Por que A Divina Comédia de Dante é considerada uma obra-prima? Por que A Montanha Mágica de Thomas Mann se tornou um clássico da literatura mundial? Milhares de pessoas, de várias épocas e lugares, valorizaram o conteúdo dessas obras e acredito que também nós hoje podemos nos beneficiar de procurar entender por conta própria porque essas obras são importantes.
Estudar e entender a sociedade e a história também é importante para nos dar uma perspectiva mais ampla de nossos atos, além de ver somente como eles afetam nosso bolso para entender como eles afetam o mundo e as gerações futuras. Há algum tempo vi um vídeo, de 2013, de Regina E. Dugan, uma personalidade no mundo da tecnologia, conhecida, entre outras coisas, por seu trabalho como funcionária pública dos EUA na área de defesa. Na entrevista ela demonstra tatuagens eletrônicas que podem armazenar informações e pílulas comestíveis com circuitos eletrônicos alimentados pela energia que geram ao entrar em contato com os ácidos presentes no estômago. Ela argumenta que essas tecnologias podem ser usadas como tokens de autenticação e identificação dos usuários. Acredito que qualquer pessoa que conheça a história ficaria no mínimo preocupada com o que aconteceria se pílulas ou tatuagens eletrônicas fossem usadas por governos ditatoriais. Na 2ª guerra mundial, por exemplo, os computadores da época, que faziam a leitura de dados armazenados em cartões perfurados, foram essenciais para garantir a eficiência em escala industrial do morticínio que houve nos campos de concentração nazistas.
Não tenho dúvidas que os acadêmicos, técnicos e engenheiros por trás do desenvolvimento das tecnologias citadas por Dugan são inteligentes. Mas me pergunto se eles têm uma compreensão mais ampla do impacto de suas ações na sociedade. Certamente a resposta é negativa se forem pessoas que somente leem e estudam sobre sua área de atuação profissional e/ou apenas veem o conhecimento como forma de ganhar dinheiro.
O desenvolvimento da tecnologia de transmissões via rádio também impactou a sociedade de forma muito profunda e possibilitou a Benito Mussolini que sua mensagem fascista chegasse a todos os cantos da Itália com uma rapidez maior do que a mídia impressa. Todavia, a mente brilhante por trás da invenção do rádio, Guglielmo Marconi, certamente não era ignorante a respeito desse uso da tecnologia, sendo ele próprio membro do Partido Nacional Fascista. Esse exemplo histórico nos traz outro ponto: como foi argumentado, o conhecimento é importante, mas não é tudo. Digo isso porque há muitas vozes hoje repetindo slogans como “apenas a educação vai salvar o Brasil” ou ainda, “o Brasil precisa de alta cultura”, que discordo totalmente.
Arrisco dizer que muitos dos bandidos de colarinho branco, ao longo da história do Brasil, que saquearam os cofres públicos e geraram impactos negativos para gerações de brasileiros, eram instruídos nos clássicos, estudiosos e cultos, mas isso não os impediu de fazer o que fizeram. Como disse, em outras palavras, o Pregador em Eclesiastes 1: a busca do conhecimento também pode ser vaidade e correr atrás do vento, quando a perspectiva é apenas debaixo do sol.
Em um país como o Brasil, onde a ignorância predomina e seus efeitos ficam cada vez mais latentes na sociedade, enquanto uma elite política aproveita essa situação para explorar o fruto do trabalho do povo em benefício próprio, é fundamental ter uma postura equilibrada em relação ao conhecimento. Se você almeja por uma mudança positiva em nosso país e quer fazer parte dela, é extremamente necessário se instruir para o seu crescimento pessoal e profissional, e para ser uma pessoa melhor para todos à sua volta.
Instituto Pró-Livro. Retratos da Leitura no Brasil - 6ª edição. Disponível em: <https://www.prolivro.org.br/pesquisas-retratos-da-leitura/as-pesquisas-2/>. Acesso em: 27.08.2025.
A Bíblia Sagrada. Traduzida em português por João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada no Brasil. 2ª ed. Barueri - SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 1999.
Liz Gannes. Electronic Tattoos and Passwords You Can Swallow: Google’s Regina Dugan Is a Badass. All Things D. Disponível em: <https://allthingsd.com/20130529/electronic-tattoos-and-passwords-you-can-swallow-googles-regina-dugan-is-a-badass/>. Acesso em: 27.08.2025.
United States Holocaust Memorial Museum. Tattoos and Numbers: The System of Identifying Prisoners at Auschwitz. Holocaust Encyclopedia. Disponível em: <https://encyclopedia.ushmm.org/content/en/article/tattoos-and-numbers-the-system-of-identifying-prisoners-at-auschwitz>. Acesso em: 27.08.2025.
The Guardian. IBM 'dealt directly with Holocaust organisers': Author says US firm had control of Polish subsidiary. Disponível em: <https://www.theguardian.com/world/2002/mar/29/humanities.highereducation?CMP=share_btn_url>. Acesso em: 27.08.2025.
R. Galdi, F. Pietra e A. Savini. Radio broadcasting and its political use in Italy between the two world wars. IEEE Xplore. Disponível em: <https://ieeexplore.ieee.org/document/5735275/>. Acesso em: 27.8.2025.




Excelente panorama destacando que conhecimento é totalmente diferente de sabedoria. Mas, nos tempos de hoje, especialistas podem levar a humanidade a destriuição. Eles são menos demandados que os sábios, aqueles que viveram, que experenciaram, tudo isso porque tudo está intimamente ligado. Nada acontece sem que todos sejam impactados, consciente ou inconscientemente. Porque criação somente pode ser boa se aproveitar as experiências boas e mitigar ou excluir as más. Parabéns pelo artigo!
Que texto sensacional!
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