A Busca das Riquezas
Uma visão civilizatória
Introdução
No livro O Cortiço, de Aluísio de Azevedo (1857-1913), é descrita uma cena envolvendo o estudante Henriquinho, um dos vizinhos mais abastados do cortiço, e Leocádia, moradora do cortiço, lavadeira e casada com Bruno. Por vezes Henriquinho ficava observando e fazendo investidas de cunho sexual à Leocádia, mas sempre sem sucesso. Mas, na cena em questão, ele tenta novamente, agora com um coelho consigo, que Leocádia cobiçou para si e pediu que Henriquinho lhe desse o bichinho, ao que ele respondeu com um gesto, insinuando o preço necessário para atender ao pedido dela, ao que ela logo respondeu positivamente, indicando que o local mais adequado para consumar o acordo seria no capinzal atrás do cortiço, entre as plantas. No meio do ato entre os dois Leocádia diz a Henriquinho:
“Olha! pediu ela, faz-me um filho, que eu preciso alugar-me de ama de leite... Agora estão pagando muito bem as amas! A Augusta Carne-Mole, nesta última barriga, tomou conta de um pequeno aí na casa de uma família de tratamento, que lhe dava setenta mil réis por mês!... E muito bom passadio!... Sua garrafa de vinho todos os dias!... Se me arranjares um filho, dou-te outra vez o coelho!”
Primeiro, Leocádia cobiçou o coelho, não se importando com o preço que teria de pagar. Depois, fica claro que o dinheiro e o conforto que ele poderia trazer eram ainda mais desejosos para ela do que o coelho. Para ela, aquelas riquezas valiam mais do que sua dignidade, mais do que seu casamento e a estabilidade da sua família. Ela se importava mais com uma fonte de renda extra do que com a vida humana que poderia nascer daquela relação. Henriquinho, por sua vez, por ter bens e mais dinheiro, aprendeu ali que poderia satisfazer seus desejos mais sujos apenas pagando o preço. Ele vivia em um ambiente onde com pouco ele poderia comprar aquilo que não deveria ter preço: a dignidade humana.
Seria ótimo se O Cortiço fosse apenas uma peça de ficção e não um retrato da sociedade brasileira que permanece fiel à realidade. As pessoas ainda se vendem e, pior, vendem outros por dinheiro. Recentemente o noticiário repercutiu o caso de uma mãe presa por “alugar” a filha de 11 anos para ser abusada, e essa é mais uma notícia que se soma a outras parecidas, onde os pais tratam seus próprios filhos como mercadorias.
É inegável que a busca por riquezas é uma área importante e abrangente da vida, todos precisam se sustentar para viver, e é normal almejar ter mais conforto. Mas quando essa busca se torna desenfreada e não balizada por princípios morais e éticos, o caminho para a selvageria está pavimentado. Quando a adoração ao dinheiro é incentivada, a sociedade começa a se deteriorar rapidamente, e hoje no Brasil vivemos os reflexos disso. A visão que temos do dinheiro e de como obtê-lo afeta diversas áreas da vida e da sociedade, e nossas escolhas pessoais podem nos tornar um agente que contribui para a degradação da sociedade ou uma pequena luz em meio às trevas.
O Trabalho Honesto é a Fonte Natural das Riquezas
Essa é uma premissa simples: o modo normal de buscar as riquezas é pelo trabalho honesto. Quem quer melhorar de vida deveria almejar ter uma profissão, trabalhar e se sustentar a partir do seu próprio esforço. Isso é o básico, o normal e o caminho que deveria ser seguido por todos. Existem situações específicas de pessoas que por questões de saúde não podem trabalhar, mas são exceções; a maioria da sociedade não se enquadra nessas situações.
Apesar de uma premissa simples que pode parecer óbvia, é necessário reafirmar esse ponto porque há muitos que vivem à procura de atalhos. Uma vez conheci um homem que trabalhava como controlador de acesso. Estávamos conversando e ele contou, com muito orgulho, que em uma empresa em que trabalhou, após ser demitido, ele processou a empresa e ganhou na justiça o valor de R$ 20 mil. Não me lembro exatamente o motivo do processo e não vou entrar no mérito se a sentença a favor dele foi justa ou não. Mas o que realmente me chamou a atenção foi que, desde então, o alvo dele era conseguir processar outra empresa para ganhar mais uma “bolada”. Devido a sua “meta”, ele sempre arrumava problemas onde trabalhava e não ficava muito tempo nos empregos. Por fim, o dinheiro que ele ganhou foi gasto em uma moto, que ele teve de vender pouco tempo depois por um valor abaixo porque estava endividado. Para ele o caminho para alcançar seus sonhos era algum dia dar sorte e ganhar mais um processo na justiça. Ele não pensava em fazer um bom trabalho e receber uma remuneração adequada para isso. Para ele esse não era o caminho normal.
Mas há outros exemplos. A maioria das pessoas já conheceu alguém que passou a vida toda apostando em loterias, mesmo com todas as chances contra si, e que pretende continuar apostando? Todos com um objetivo claro: ter muito dinheiro e não precisar mais trabalhar.
Mas os tempos mudaram e não foi para melhor. Com a liberação das bets e jogos de cassino online, as pessoas nem precisam sair de casa para apostar. Tenho visto cada vez mais pessoas jogando o famoso “jogo do tigrinho”, outras em sites e aplicativos de apostas. Virou uma febre. Todos procurando dinheiro fácil, mas acabam caindo em uma armadilha cuidadosamente preparada para deixar o jogador viciado. E muitas vezes as consequências do vício não afetam somente o viciado.
Há alguns meses, de acordo com matéria de jornal, uma servidora de uma creche da prefeitura do município de Presidente Kennedy, no Tocantins, foi presa por usar os dados dos pais dos alunos para fazer empréstimos no nome deles, chegando a um prejuízo de R$ 100 mil, tudo para sustentar seu vício em jogos de cassino online. Além dos empréstimos, ela já tinha perdido um carro e uma casa com os jogos.
Outra notícia, veiculada pela CNN, fala de uma jovem de 22 anos que supostamente teria desviado R$ 179 mil do avô para gastar em jogos de cassino online, na mesma reportagem é citada ainda outra jovem que tinha dívidas de aproximadamente R$ 20.000, tudo gasto no “jogo do tigrinho”. A cada dia aparecem mais notícias como essas.
E assim uma grande parcela da população segue procurando atalhos para vencer na vida. Não veem o trabalho honesto, o esforço e a qualificação profissional como uma alternativa para alcançar seus sonhos e tampouco valorizam ou conhecem a sensação de tranquilidade e paz que a remuneração honesta traz. Muitos vivem sonhando com um padrão de vida de ostentação e luxo, quase sempre inspirados pelas celebridades e influencers do momento, por almejar isso, desprezam seus empregos e vivem procurando caminhos mais curtos que levem ao topo. Não importa se um trabalho é simples e sua remuneração é baixa, o mais importante é que seja honesto. Querer melhorar de vida e buscar o melhor é importante, mas essa busca deve envolver esforço e te tornar uma pessoa melhor, não com atalhos que levam à própria destruição e à de outros.
Ser senhor do seu Destino e da sua Vida Financeira
Muito se fala sobre a riqueza dos Estados Unidos, sobre o padrão de vida da sociedade norte-americana e dos motivos que levaram o país a chegar a esse patamar de desenvolvimento. Uma das características do mercado de trabalho dos EUA é a flexibilidade e simplicidade das obrigações trabalhistas dos empregadores. Basicamente, a obrigação de um empregador é pagar o que foi acordado proporcional ao trabalho realizado, ou seja, só se ganha pelo dia trabalhado. Sem férias remuneradas, FGTS e licenças remuneradas. Os benefícios dessa abordagem são a oferta maior de empregos, já que esse modelo desonera os empregadores, e proporcionam uma maior remuneração aos empregados. E os empregados sabem que não podem contar com esses benefícios e se quiserem usufruir de, por exemplo, férias, precisam se programar financeiramente para isso.
E muitos se perguntam se a sociedade brasileira teria maturidade para migrar para um modelo de mercado de trabalho semelhante ao norte-americano e, aparentemente, a resposta é não. Uma matéria do jornal O Globo, citando uma pesquisa conduzida pelo Instituto Locomotiva e encomendada pela 99Pay, mostrou que o percentual de brasileiros que não possuem uma reserva financeira para emergências varia entre 63% (classes AB) e 81% (classes DE).
O fato é que o próprio Estado brasileiro não considera a população capaz de tomar as decisões corretas sem a sua tutela. Por esse motivo, todo mês uma parte do salário da maioria dos trabalhadores brasileiros é descontada para compor o FGTS, cujo principal objetivo é ser uma garantia caso o trabalhador seja demitido. É um dinheiro que pertence ao trabalhador, mas que ele não pode usar, afinal, quem poderia gerir melhor esse dinheiro do que o governo? [contém ironia].
Ser responsável por si inclui assumir a responsabilidade pela sua vida financeira. Ter uma reserva financeira própria é o mais básico para estar preparado durante adversidades e emergências que ninguém está livre de passar. Além disso, ainda torna o cidadão mais autônomo em relação ao Estado, que sempre cria barreiras burocráticas, por vezes, nos momentos em que cada minuto conta.
Outro ponto importante que envolve tomar para si a responsabilidade sobre seu futuro financeiro é a aposentadoria. Quanto brasileiros não passam os dias sonhando com a aposentadoria, mas sem guardar um centavo para o futuro? Pelo contrário, delegam ao Estado a gestão do seu futuro financeiro. Enquanto isso, o rombo na previdência só aumenta: uma reportagem do Poder360 citou que a estimativa do Tesouro Nacional é que o rombo na previdência deverá ultrapassar R$ 1 trilhão em 2041.
A reserva de emergência e a aposentadoria são alguns dos pontos mais básicos, mas há outro conceito importante: não gastar mais do que ganha e evitar o endividamento. Isso pode soar óbvio para alguns, mas provavelmente a maioria da população não faz isso, mostrando a necessidade de reafirmar essas verdades.
A população brasileira ainda não está preparada para migrar a um modelo de mercado de trabalho como o norte-americano, mesmo que traga mais riquezas ao país e bem-estar à população. Mas, no momento, nosso país não precisa de uma mudança assim, precisamos, antes, que cidadãos comuns comecem a mudar seus hábitos financeiros e sejam mais conscientes da importância de serem mais responsáveis nesta área da vida. Uma mudança assim torna as pessoas mais maduras e mais responsáveis por si, sem depender de benefícios ou migalhas que o governo oferece, além de evitar que se tornem escravas do dinheiro, mas sim senhores da sua vida.
Como a Visão Distorcida das Riquezas Corrompeu o Cristianismo
A promessa de obter riquezas e prosperidade material atrai muitos para as bets e para os sites de apostas, mas também para igrejas. Muitos líderes religiosos descobriram ser mais fácil encher uma igreja falando de prosperidade do que de arrependimento, e assim adequaram seu discurso conforme as expectativas do público.
A Teologia da Prosperidade invadiu muitas igrejas e contribuiu para distorcer, ainda mais, a visão dos brasileiros a respeito das riquezas. Eles ensinam que o sinal da bênção divina é a prosperidade material, praticamente como uma troca: você obedece a Deus e Ele lhe dá riquezas e uma vida tranquila.
Eles até citam a Bíblia, nos trechos que convêm, falando de Abraão, José, filho de Jacó e Jó, homens de Deus e muito ricos no seu tempo. Mas preferem não comentar sobre outros, como o apóstolo Paulo, que fez o caminho contrário: era um fariseu com boa posição social, mas que perdeu todo seu prestígio e status para ser perseguido, depois que se tornou apóstolo de Cristo. O próprio Jesus, que cumpriu perfeitamente a vontade do Pai, não teve riquezas materiais.
“Mas Jesus lhe respondeu: As raposas têm seus covis, e as aves do céu, ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça.” (Mt. 8. 20)
E por mais contraditório que pareça, a verdade é que muitos que pregam a Teologia da Prosperidade são responsáveis por tirar a prosperidade dos fiéis em benefício próprio. Usam a fé e a ganância das pessoas, prometendo que quanto mais derem, mais receberão, e lhes impõem cada vez mais cobranças financeiras absurdas, tirando o pouco que eles têm.
“Atam fardos pesados e os põem sobre os ombros dos homens; entretanto, eles mesmos nem com o dedo querem movê-los.” (Mt. 23. 4)
A Bíblia não ensina que a situação social das pessoas é sinal de virtude ou do favor divino. Não é por ser mais pobre que uma pessoa é pura de coração e nem por ter muito dinheiro que ela está sendo abençoada por Deus. Na verdade, na história da igreja, muitos dos que optaram por seguir a Cristo perderam tudo e sofreram muito. A motivação para se tornar cristão não deve ser a prosperidade financeira e material, mas a busca por encontrar algo tão valioso que faça as riquezas do mundo perderem o brilho. Deus tem projetos diferentes para cada pessoa, somente Ele conhece quais são seus planos para cada um. No decorrer da história bíblica ele escolheu alguns de seus servos fiéis para conceder grandes riquezas, e a outros ele permitiu pobreza e sofrimentos, da mesma forma acontece hoje.
As igrejas, de fato, precisam de doações financeiras para cobrir seus custos e continuar funcionando, mas é importante saber avaliar quando abusos são cometidos. Quando uma cobrança exagerada de um líder religioso coloca em risco sua capacidade de se sustentar para não ser um peso aos outros, ou quando compromete as necessidades da própria família, então é importante discernir o que é a vontade de Deus e o que é charlatanismo.
Conclusão
Em resumo, o ambiente cada vez mais degradado que vemos hoje no Brasil é causado pela ganância, por uma busca desenfreada pelas riquezas. Para o país chegar ao nível em que se encontra hoje é porque a corrupção não está mais somente concentrada nas mãos dos poderosos, mas está também dispersa em milhares de cidadãos comuns. À sua forma, cada um contribui para o caos em geral, enquanto os poderosos causam um impacto maior, o cidadão comum destrói sua própria vida e a das pessoas ao seu redor, além de dar legitimidade para que os corruptos, que têm muito dinheiro, se sintam à vontade para fazer tudo que quiserem.
A boa notícia é que, assim como o cidadão comum pode afetar negativamente a própria vida e a de quem está à sua volta, pessoas comuns também podem fazer a diferença para melhor. Se você já pensa assim e acha tudo que foi dito óbvio, está na hora de ser exemplo e abrir os olhos de pelo menos alguns dos milhares de brasileiros que vivem na escuridão, escravos da própria ganância. E se você é alguém que sabe que estava vivendo como escravo, então é hora de mudar sua atitude pessoal, nunca é tarde para isso.
Ser uma lanterna em uma sociedade mergulhada na escuridão é continuar falando que o correto é trabalhar honestamente, mesmo quando muitos chamam de otário quem escolhe não tirar vantagem das situações. É continuar dando um bom exemplo para todos à sua volta, e ter a coragem de não se curvar porque a sua dignidade não tem preço. Por fim, é honrar todo dia a escolha de não permitir que a ganância, que há intrinsecamente em todo ser humano, te domine e escravize.
“Eu desejo que você ganhe dinheiro,
pois é preciso viver também.
E que você diga a ele, pelo menos uma vez,
quem é mesmo o dono de quem.” (Frejat)
AZEVEDO, Aluísio. O cortiço. Brasília: Edições Câmara, 2018.
A BÍBLIA SAGRADA. Traduzida em português por João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada no Brasil. 2. ed. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 1999.
AMOR pra recomeçar. Frejat. 2001. 1 disco sonoro.
ENTENDA em gráficos por que a Previdência será insustentável. Poder360, Brasília, DF, 18 nov. 2025. Disponível em: https://www.poder360.com.br/poder-economia/entenda-em-graficos-por-que-a-previdencia-sera-insustentavel/. Acesso em: 18 nov. 2025.
JOVEM é presa suspeita de desviar R$ 179 mil do avô para apostar em jogo online. CNN Brasil, [s.l.], 17 out. 2025. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/jovem-e-presa-suspeita-de-desviar-r-179-mil-do-avo-para-apostar-em-jogo-online/. Acesso em: 17 out. 2025.
MÃE “alugava” filha de 11 anos para abusadores e dava vídeos do crime. Metrópoles, Brasília, DF, 15 out. 2025. Disponível em: https://www.metropoles.com/distrito-federal/na-mira/mae-alugava-filha-de-11-anos-para-abusadores-e-dava-videos-do-crime. Acesso em: 15 out. 2025.
MESMO entre os mais ricos, a maioria dos brasileiros não tem reserva de emergência, aponta estudo. O Globo, Rio de Janeiro, 29 abr. 2025. Disponível em: https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2025/04/29/mesmo-entre-mais-ricos-maioria-dos-brasileiros-nao-tem-reserva-de-emergencia-aponta-estudo.ghtml. Acesso em: 22 out. 2025.
SERVIDORA usou dados de pais de alunos para fazer empréstimos e apostar mais de R$ 100 mil em jogos online, diz polícia. G1, [s.l.], 11 out. 2024. Disponível em: https://g1.globo.com/to/tocantins/noticia/2024/10/11/servidora-usou-dados-de-pais-de-alunos-para-fazer-emprestimos-e-apostar-mais-de-r-100-mil-em-jogos-online-diz-policia.ghtml. Acesso em: 17 out. 2025.




É tudo isso, junto e misturado. Concordo com os argumentos. Porem faço uma ressalva, realmente não é muito simples a relação de trabalho e remuneração. Encontrar um trabalho na dimensão da sua capacidade e oportunidade, não é trivial. Sou empresário e tenho uma empresa de serviços especiais, o mercado muitas vezes é muito perverso, e não conseguimos a remuneração correta. Um bom tema. Agradeço a oportunidade de compartilhamento do tema.
Parabéns pelo texto e, acredito ser profundo na alma dos cristãos e, uma excelente reflexão para o momento que o mundo vive sem o Amor e a Compaixão de Jesus Cristo!}
Grato pelas palavras e textos!